sábado, 12 de junho de 2010

SUBMARINO TIKUNA,VISTO POR DENTRO MB

Pela primeira vez um órgão de imprensa brasileira acompanha um exercício naval de primeira grandeza, no exterior, desde uma perspetiva submarina. ALIDE não pode deixar de agradecer tanto à Marinha do Brasil quanto a Força de Submarinos esta grande honra e a confiança em nós depositada.




Mesmo fora das Forças Armadas não resta dúvida que os nossos cinco submarinos diesel-elétricos constituem-se na ponta de lança da dissusão militar brasileira. Em breve uma grande revolução será colocada em marcha, com a efetiva duplicação da Força de Submarinos e a criação de uma nova base dedicada e de um moderno estaleiro em Sepetiba no Estado do Rio. Faz então todo o sentido que este primeiro e espetacular investimento na recomposição das nossas Forças Armadas ocorra com a significativa expansão da Força de Submarinos.





Pela primeira vez um órgão de imprensa brasileira acompanha um exercício naval de primeira grandeza, no exterior, desde uma perspetiva submarina. ALIDE não pode deixar de agradecer tanto à Marinha do Brasil quanto a Força de Submarinos esta grande honra e a confiança em nós depositada.



Mesmo fora das Forças Armadas não resta dúvida que os nossos cinco submarinos diesel-elétricos constituem-se na ponta de lança da dissusão militar brasileira. Em breve uma grande revolução será colocada em marcha, com a efetiva duplicação da Força de Submarinos e a criação de uma nova base dedicada e de um moderno estaleiro em Sepetiba no Estado do Rio. Faz então todo o sentido que este primeiro e espetacular investimento na recomposição das nossas Forças Armadas ocorra com a significativa expansão da Força de Submarinos.




Um diário de bordo do Tikuna durante a UNITAS Gold 2009



Chegamos a Mayport, uma base naval americana na costa nordeste Flórida onde fica a sede do NAVSO (US Naval Forces Southern Command, a Quarta Frota e o Destroyer Squadron 40 (DESRON40). Esta base serviu de sede para a 50ª edição do exercício UNITAS com a presença de 12 marinhas e 13 navios e submarinos estrangeiros.



Corredor do Tikuna

Manutenção do periscópio no compartimento de comando.

Motores

Tikuna em Mayport, visto de proa.

Toilete. A porta à esquerda é o chuveiro.




Taifeiros trabalhando na cozinha.

Compartimento de comando em dia de faina.

Gaudério é gaudério.

Verificando os mantimentos

Check-list



Mayport Naval Station, quinta-feira, 23 de abril de 2009

Este “Diário” começou propriamente no momento em que ALIDE embarcou no Tikuna. Fomos então recebidos pelo próprio Comandante Nelson, um gaúcho fanático pelo Internacional de Porto Alegre, e pelo seu Imediato.


Conhecendo por dentro o IKL 209-1400 Mod

Para começar, o Imediato nos levou para uma pequena excursão pelo interior do submarino. O Tikuna é uma evolução do projeto alemão IKL-209, mas trata-se verdadeiramente de uma classe à parte, tamanha a quantidade de modificações que foram feitas pelos engenheiros brasileiros. Embora o submarino seja pequeno, o passeio foi demorado. Mas ninguém aqui tem pressa. Afinal, a missão está prevista para durar onze dias de mar. Começamos pela Sala de Torpedos, que também serve como rancho (sala de refeições) dos praças. O Imediato aproveitou esta oportunidade para mostrar, de modo sumário, quais são os procedimentos da tripulação em diversas situações. Penduradas na sala de torpedos existem duas televisões lado a lado. Aqui a tripulação que está descansando, pode cochilar ou ver um filme, documentário ou shows. Quem tá "de pau" (de serviço) está ocupado com a "faina" (trabalho) e quem não está pode descansar ou visitar a Base de Mayport ou a cidade de Jacksonville .



A nossa visita passou pelos camarotes, incluindo o do Comandante, que é o maior camarote de todos. Naturalmente, um patamar de conforto proporcional ao nível de responsabilidade assumido por ele. Próximo ao camarote do Comandante, fica a Sala de Comando. Ali é que é, propriamente, o “cérebro” do navio. Nesta sala estão localizados os monitores e equipamentos eletrônicos que garantem tanto a letalidade quanto a sobrevivência da embarcação. A visita se encerra na sala de máquinas, na popa. Submerso, o Tikuna é sempre movido por um grande motor elétrico que é alimentado por baterias. De tanto em tanto tempo, estas baterias têm que ser recarregadas pelos geradores elétricos (movidos pelos motores diesel) do submarino. Naturalmente, este processo de recarga somente rode ser realizado ou na superfície ou mergulhado com o duto de ar da vela para fora d’água, o processo chamado de “snorkeling”.


Compartimento de máquinas

Razão de tudo.

Fragata Blanco Encalada

Fragata Lübeck

Entrando em formação



Fragata Montreal

USS Oak Hill

Fragata Constituição

Parte da frota, vista do Tikuna.

Fragata Montreal




Todos, sem exceção, nos trataram com a maior cortesia. Neste primeiro dia, já almoçamos e jantamos a bordo, por sinal, uma comida excelente. Também começamos a acompanhar a rotina regular do submarino, aos poucos, nos familiarizando com o jargão naval, ou, melhor, com o jargão “submarinístico”. Esta é uma linguagem bem característica. Por exemplo, na hora do almoço o taifeiro perguntou o que queríamos almoçar. Escolhido o prato, ele perguntou em seguida: - E a jacuba? (a bebida...). Algo que chama a atenção é que a despeito dos tripulantes do submarino serem bastante jovens, alguns já mostram precoces tufos de cabelos brancos na cabeça.



Mayport, sexta-feira, 24 de abril de 2009

Hoje é dia de ir para o mar. Acordamos cedo e vestimos pela primeira vez o macacão operativo da ALIDE para tomar o café da manhã com o Comandante e com os oficiais na Praça d`Armas. Uma rotina que se repetirá até o término da missão. Para assistir a manobra de desatracação, o Comandante nos convida a subir na vela, aquela “torre” do submarino. Foi um espetáculo lento e interessante. O prático veio a bordo e nos guiou, passo a passo, em direção à saída da base, e daí para o alto mar. Dois botes de borracha (RHIBs) da Guarda Costeira, armados com uma metralhadora calibre 7,62 cada instalada na proa, nos acompanharam nesse trajeto. No caminho, recebemos a notícia de que o submarino canadense que havia suspendido no dia anterior, junto com o resto da frota da Unitas Gold, estava retornando ao porto por problemas técnicos. O Tikuna, recebeu elogios por parte dos marinheiros americanos, pela sua aparência impecável. Quando nos aproximamos deles, explicamos que não se pode esquecer que o submarino ainda é bem novo. Mas, realmente, o Tikuna parece ter saído do estaleiro ontem.



O submarino canadense que participou na Unitas Gold é um modelo de propulsão convencional, o HMCS Corner Brook, da classe Upholder. Esta classe de submarinos foi desenvolvida no Reino Unido para substituir a Classe Oberon, na época ainda em serviço na Royal Navy. Os Oberon alcançaram um bom sucesso no mercado de exportação, mas, a sua classe sucessora não foi tão feliz no mercado. Chegando até a haver um serissimo caso de incêndio a bordo no HMCS Chicoutimi, durante sua viagem de entrega em 2005. Outros problemas também apareceram posteriormente, alguns dos quais foram atribuídos a defeitos no projeto.



Logo após o prático deixar o Tikuna, navegamos em direção a área do primeiro exercício. E recebemos uma escolta de primeira. Um grupo de golfinhos animadamente ficou brincando na nossa proa. Ficamos na superfície e maior parte do tempo neste dia e só submergimos com o cair da noite. Aprendi que os submarinistas aproveitam o máximo possível para respirar ar puro.



Ao descermos para o interior do submarino, todos já começam a fazer guerra (brincar) comigo, incluindo as terríveis “ameaças” veladas sobre como será o meu “batismo”. Sim! Novatos em sua primeira submersão passam sempre por um “batismo” a bordo. Segundo me foi informado: “Não é possível navegar pelo reino de Netuno sem permissão e muito menos sendo pagão. Há um protocolo a ser seguido”. O vídeo vai lhes mostrar todos os detalhes desta solene cerimônia.



No dia seguinte, às 07h00 começou a primeira parte da Unitas Gold, um exercício em que uma aeronave P-3, semelhante a que a FAB comprou recentemente, tentaria localizar o Tikuna. Todos os tripulantes a bordo claramente apostam no submarino brasileiro. Não se trata de arrogância, mas de um real conhecimento do potencial da arma que estes homens operam. Os submarinos diesel-elétricos, como este, são absurdamente silenciosos, e o Tikuna parece ser mais silencioso ainda do que o normal.



Soou o alarme de imersão e nós mergulhamos.



Após a submersão, foi feito um briefing da missão em termos gerais para toda a tripulação, exceto, é claro, para quem estava de pau (de serviço) naquela hora.



Costa da Flórida, sábado, 25 de abril de 2009

Nossa ansiedade com o exercício envolvendo o Tikuna e a aeronave P-3C, acabou se transformando em frustração. O nosso “anfitrião” chegou 20 minutos atrasado ao ponto de encontro, fez contato, como previsto, e simplesmente desapareceu. Chegamos a observar a aeronave circulando próximo de onde estávamos, inclusive eu mesmo tive a oportunidade de observá-lo pelo periscópio, mas o avião acabou não respondendo às chamadas de rádio do Tikuna. Em apenas uma oportunidade, foi estabelecida comunicação com P-3, mas depois disso, total silêncio. O exercício acabou as 11h00. Na prática não houve exercício. Uma das finalidades declaradas seria treinar a tripulação do P-3C para visualização dos mastros do nosso submarino.

Em 1982, durante a Guerra das Falklands/Malvinas, a materialização de um único submarino nuclear britânico bastou para colocar toda a frota de superfície da Armada Argentina no porto até a data da capitulação. Isso ficou ainda mais dolorosamente claro com o afundamento do ARA General Belgrano nas mãos de um submarino que ele nem sequer viu chegar perto. Vários fatores levaram a Argentina à derrota. Um dos mais importantes foi a sua forte dependência tecnológica de fornecedores localizados em outros países. Outro foi a sua frota de submarinos que na época estava reduzida a apenas dois navios, um número infinitamente inferior ao que demandaria naturalmente uma nação com tantos quilômetros de costa, como a Argentina.




Mas se levarmos em conta as palavras mestras da nossa recém-publicada Estratégia Nacional de Defesa, fica claro que no âmbito político nacional já é consenso que os submarinos são hoje, e serão cada vez mais, a arma principal de dissuasão militar da Pátria. Por isso, o tamanho da frota de submarinos diesel-elétricos esteja sendo quase que dobrado neste momento, e que, finalmente, poderemos ter uma data firme para a construção do primeiro submarino nuclear totalmente desenvolvido e construído no novo estaleiro/base contratado à empresa francesa DCNS. Assim o governo demonstra ter compreendido claramente os riscos de se ficar dependente de “caixas pretas” e tecnologias estrangeiras neste importante setor.




Os submarinos nucleares são armas de altíssimo valor estratégico. Mas o submarino em si é apenas uma plataforma para o lançamento das armas. De nada adianta submarinos sem sensores e armas: torpedos, mísseis e minas da mais nova geração. Estes sistemas devem, se seguirmos fiéis, ao espírito da END, vir a serem fabricados no país de forma a não sermos condenados a reprisar a dura experiência da Argentina em 1982.




No que depender de preparo e da dedicação dos homens, avaliando-se unicamente por estes poucos dias passados a bordo do Tikuna, a Força de Submarinos e o Brasil estão muito bem servidos.




A escritora Rachel de Queiroz disse certa vez: “Quando houverem se acabado os soldados do mundo, quando houver a paz absoluta entre os povos, que fiquem pelo menos, os Fuzileiros como exemplo de tudo de belo e fascinante que eles são”. Com o devido respeito aos Fuzileiros, mas, Dona Rachel nunca deve ter conhecido os homens que vivem suas vidas a bordo de um submarino.



Agora, do ponto de vista exclusivamente pessoal, especialmente por eu ser um admirador de longa data da arma submarina, esses dias passados na companhia da tripulação do mais moderno e letal submarino da Marinha do Brasil, foi uma experiência mais do que gratificante.



Na marca Tikuna!
Naqueles dias antes da partida, sempre surgiam novidades. O adido naval na África do Sul solicitou uma parada do navio por três dias na principal base naval do país, Simonstown, antes dele parar na vizinha Cape Town. Pedido seria atendido, mas para isso o plano da viagem seria novamente ajustado.




Finalmente, após longa preparação, no dia 21 de fevereiro, o navio deixou o Rio de Janeiro.



A cada novo porto caberia ao Chefe de Intendência a tarefa de adquirir os produtos necessários para a alimentação e o conforto dos tripulantes. Na área de alimentação eram adquiridos especialmente os itens perecíveis: verduras, legumes e frutas. Localmente cabia aos Adidos e a algum operador logístico local dar apoio ao navio nesta função.



O Garcia d’Ávila embarcou um helicóptero Esquilo do Esquadrão HU-1, com um Destacamento Aéreo Embarcado (DAE) composto por três pilotos e dez praças. O helicóptero Esquilo foi escolhido por duas razões: primeiro, porque não ocorreria nenhum exercício naval complexo nesta comissão, e, segundo, porque ele é bem mais simples e barato de se manter, durante aqueles cinco meses e meio da missão. Por todo o período da viagem o helicóptero brasileiro apenas voaria sobre águas internacionais além de não ter se programado qualquer exercício de “cross-deck”, o seu pouso em navios de outras marinhas. Estes vôos treinaram tanto os pilotos quanto o pessoal de convôo e de controle de operações aéreas no COC do navio. Uma única vez o helicóptero foi utilizado para exercitar o recolhimento de náufrago do mar.


Deixando o Atlântico para trás, o navio brasileiro cruzou o Cabo da Boa viagem navegando numa corrente favorável de 5/6 nós, num dia com clima perfeito, “céu azul e com uma temperatura ideal para se ir à praia, para sair de bermudas e de tênis”, exemplificou o Comandante Biasoli.




Após vários dias de mar o navio chegou ao Atol de Diego Garcia, perfazendo a primeira visita de um navio militar brasileiro por aqui na história. O Atol tem uma grande lagoa em seu interior onde ficam fundeados os navios da Força de Pre-posicionamento Marítimo (estratégico) dos EUA. Em seu interior estes navios levam armamento, peças de reposição e combustível que pode ser necessário caso alguma crise militar se conflagre em qualquer região localizada ao redor do Índico, Pacífico e do Oriente Médio. Estes estoques estratégicos dão às forças armadas americanas, a capacidade de intervir imediatamente sem que seja necessário realizar uma mobilização emergencial dos estoques localizados no continente americano. A escala do Garcia foi uma “parada técnica”, uma oportunidade para realizar algumas manutenções menores no navio, que não passou de dois dias. Um prático militar guiou o navio brasileiro até o interior da lagoa. Após fundear, o navio foi imediatamente cercado por uma barreira flutuante daquelas usadas para precaver contra possíveis vazamentos de óleo ou de outros contaminantes

Esta viagem serviu para demonstrar com grande clareza quantas coisas devem passar a ser prioritárias, tanto no aspecto logístico quanto no de recursos humanos para que a Marinha do Brasil possa atender às crescentes demandas que o projeto geopolítico atual da nação fará a ela. No campo do apoio às famílias a Esquadra já disponibilizou desta vez um núcleo de Assistência Social às famílias dos marinheiros embarcados no Garcia d’Ávila. Segundo Biasoli, “Houve um grande ganho no desenvolvimento dos nossos marinheiros e da mudança da sua percepção sobre o mundo e, especialmente, da inserção do Brasil nele. Desta vez não houve nenhum problema de saúde ou disciplibar com a tripulação, mas, talvez no futuro venha a ser útil, especialmente nessas missões de mais longa duração, incluirmos um posto que ainda não é previsto no navio: o de um assistente social, ou psicólogo. Este novo membro complementaria o trabalho realizado hoje em dia pelos nossos médico e dentista.”




No final, no dia 21 de julho o navio chegou de volta ao Rio de Janeiro, após ficar 153 dias fora do Brasil. Este período foi maior do que o inicialmente previsto, mas ao sair daqui no dia 21 de fevereiro ninguém imaginaria que eles fariam um desvio de curso até a Índia ou que período de reparo do motor em Cape Town os prenderia naquela cidade por um adicional de duas semanas. Tudo deu certo. Isso é claramente fruto da soma de dois importantes itens característicos da marinha do Brasil: um planejamento e manutenção pré-comissão bem executado, com o alto grau de preparo técnico da tripulação fez com que a missão, a despeito das diversas alterações inopinadas de rota, fosse um sucesso. Do ponto de vista diplomático o navio cumpriu seu papel servindo de poderoso catalizador para a aproximação continuada do Brasil com as marinhas e os governos dos países visitados. A relação entre a Marinha e o Ministério da Defesa com o Itamaratí também recebeu uma grande ênfase com a realização desta missão que se tudo caminhar normalmente passará a ser cada vez mais comum no futuro. A Índia e a China, colegas do Brasil no grupo dos BRICs, demonstraram, de forma muito evidente, a importância que ambos países atribuem ao crescente estreitamento das relações diplomáticas e militares com o Brasil. Finalmente, foi demonstrada a capacidade, pelo comando da Marinha do Brasil, de redirecionar um navio seu, sem aviso prévio, no alto mar, o enviando para uma nova e desafiadora missão. Esta pernada imprevista representou um grande desafio logístico e humano, um sinal inequívoco de que as “peças” estão todas no seu devido lugar, e que, com o orçamento adequado, a Marinha do Brasil pode se posicionar como uma das mais importantes marinhas de águas azuis a cruzar, regularmente, os mares do nosso planeta.

Arquivo do blog segurança nacional